Será que a dependência química define a pessoa?
SERÁ QUE A DEPENDÊNCIA QUÍMICA DEFINE A PESSOA?
Há uma diferença, muito grande e importante, entre dizer que uma pessoa é um dependente químico e passar a enxergá-lo apenas como “um dependente químico”, principalmente se esta pessoa está em recuperação, pode até parecer apenas uma questão de palavras. Mas não é. Neste artigo não pretendemos “romantizar” a doença nem excluir o dependente de assumir suas responsabilidades, inclusive consigo mesmo em relação ao seu processo de recuperação.
Por trás dessa diferença existe uma questão muito mais relevante: até que ponto uma doença, um transtorno ou um período difícil da vida pode se transformar na identidade de alguém?
A dependência química pode ocupar, ou ter ocupado, um espaço enorme na vida de uma pessoa, ter interferido ou interferir em suas escolhas, prioridades, relações afetivas, trabalho, vida financeira e convivência familiar.
Durante a dependência ativa, ocorrem comportamentos que produzem sofrimento profundo em todos envolvidos: mentiras, manipulações, promessas não cumpridas, desaparecimentos, negligência, conflitos, agressividade, prejuízos financeiros e quebra de confiança. E é claro que absolutamente nada disso precisa ser negado.
Mas também é preciso perguntar: esses comportamentos dizem tudo sobre quem essa pessoa é?
A resposta exige maturidade e também conhecimento a respeito do que é a dependência química, porque envolve sustentar duas ideias ao mesmo tempo: a dependência ajuda a compreender determinados comportamentos, mas não elimina a responsabilidade por eles.
E, ao mesmo tempo: os erros cometidos durante a dependência não precisam se transformar em uma sentença permanente sobre a identidade daquela pessoa.
COMPREENDER NÃO SIGNIFICA JUSTIFICAR
Quando falamos sobre dependência química como uma condição que necessita de tratamento, algumas pessoas, ainda, imediatamente interpretam isso como uma tentativa de retirar a responsabilidade de quem sofreu com a dependência. Como se reconhecer a existência de uma doença significasse dizer: “Ele não teve culpa de nada. ” “Ela não sabia o que estava fazendo. ” “Precisamos aceitar tudo porque estava usando drogas. ” E não é disso que estamos falando e nunca vamos falar.
COMPREENDER É DIFERENTE DE JUSTIFICAR.
Uma pessoa pode compreender por que determinada situação aconteceu e, ainda assim, assumir responsabilidade pelas consequências produzidas. Aliás, a responsabilização faz parte do processo de recuperação do dependente, seja por uso de álcool ou outra substância.
Recuperar-se não significa simplesmente interromper o consumo de álcool ou outras drogas, seria muito simples e raso reduzir a recuperação a isso. Mas significa também olhar para aquilo que aconteceu durante o período de uso, reconhecer danos, rever comportamentos, aprender novas formas de se relacionar e, quando possível, reparar aquilo que foi rompido.
. Existem pedidos de desculpas que talvez precisem ser feitos.
. Existem relações que precisarão de tempo.
. Existem prejuízos que precisarão ser enfrentados.
. Existem pessoas que ainda não consigam confiar.
E quem está em recuperação necessariamente precisará compreender isso, pois a confiança dificilmente retorna porque alguém afirma: “Eu mudei. ” Ela deve, eu resumo, ser reconstruída por meio de atitudes repetidas ao longo do tempo.
MAS RESPONSABILIDADE NÃO É CONDENAÇÃO PERPÉTUA
Entretanto existe um outro extremo, a pessoa interrompe o uso, procura tratamento, muda comportamentos, começa a reconstruir sua vida. Mas dentro da família continua ocupando exatamente o mesmo lugar: “o dependente. ”
Tudo o que faz passa a ser interpretado a partir dessa identidade. Por exemplo: se está quieto: “Será que aconteceu alguma coisa? ”. Se está irritado: “Com certeza está com vontade de usar ou em profunda abstinência. ” Se chega mais tarde: “Onde será que estava? ” Se pede dinheiro: “A desconfiança também “bate” na hora, para que será que quer? ” Se sai sozinho: “Será que podemos confiar? ”
Essas preocupações ter origem em experiências dolorosas vividas pela própria família e jamais devem ser simplesmente ridicularizadas.
Quem passou anos convivendo com instabilidade, medo, promessas quebradas e recaídas também precisa de tempo para voltar a sentir segurança. Mas existe uma diferença entre reconstruir a confiança gradualmente e condenar alguém permanentemente ao seu passado.
Se qualquer comportamento no presente (durante o período da recuperação) é interpretado, exclusivamente, a partir da dependência, a pessoa deixa de ser vista em sua complexidade como indivíduo.
Ela passa a carregar uma espécie de identidade fixa: “Ele é assim porque é dependente. ”. E isso pode continuar mesmo quando muita coisa já mudou.
QUANDO O DIAGNÓSTICO ENGOLE A PESSOA
Esse fenômeno não ocorre apenas com a dependência química, em diferentes situações de saúde mental, existe o risco de transformar uma condição em identidade. Toome como exemplo a pessoa que tem o Transtorno de Esquizofrenia, que mesmo controlado com medicações, terapias, etc... carrega a identidade pejorativa.
A pessoa deixa de ser alguém que apresenta determinada condição e passa, aos olhos dos outros, a ser a própria condição.
. Sua história desaparece.
. Seu trabalho desaparece.
. Sua inteligência desaparece.
. Seus afetos desaparecem.
. Suas qualidades desaparecem.
. Seus projetos desaparecem.
. Seus erros — inclusive aqueles que nada têm a ver com a doença — passam a ser explicados pelo mesmo diagnóstico.
.
Com a dependência química, esse processo pode ser ainda mais intenso porque existe um forte componente moral, historicamente, associado ao uso de álcool e outras drogas.
Por isso ainda ouvimos expressões que não descrevem apenas um comportamento, mas parecem definir toda a essência de uma pessoa. A dependência química não é uma doença (transtorno) somente comportamental.
A linguagem importa porque a maneira como nomeamos alguém também influencia a maneira como nos relacionamos com ela. Definitivamente, uma pessoa é muito maior que seu diagnóstico.
E O CARÁTER? A DEPENDÊNCIA MUDA QUEM A PESSOA É?
Essa é uma questão muito delicada, que gera muitas discussões e debates. Durante a dependência ativa, o comportamento pode, na maioria das vezes, sofrer mudanças profundas. A necessidade de obter, consumir ou esconder o consumo da substância acaba ocupando um espaço cada vez maior na vida da pessoa.
Suas prioridades mudam completamente, diversos e importantes compromissos são abandonados, pessoas anteriormente cuidadosas podem começar a mentir e negligenciar suas obrigações, inclusive seu autocuidado e sua higiene pessoal.
Os seus valores que antes orientavam determinadas decisões podem ser, temporariamente, colocados em segundo plano.
Para quem está ao redor, a sensação pode ser: “Eu não reconheço mais essa pessoa”, e esse sentimento é absolutamente válido e legítimo. Mas talvez seja mais preciso dizer que a dependência pode modificar profundamente o comportamento, o julgamento, as prioridades e a maneira de se relacionar, em vez de concluir imediatamente que ela modificou definitivamente o caráter ou revelou “quem aquela pessoa realmente era”.
E existe também outra importante diferença, porque comportamentos podem ser revistos, relações podem ser reconstruídas, os valores podem voltar a orientar escolhas e novas formas de viver podem ser aprendidas. Isso não acontece automaticamente apenas porque a pessoa parou de usar, mas acontecem dentro e durante um processo consistente de recuperação bem elaborado.
A FAMÍLIA TAMBÉM CARREGA UMA HISTÓRIA
Este aspecto merece, também, muita atenção.
Falamos tanto sobre a pessoa em recuperação que esquecemos daqueles que viveram ao redor dela, pois durante seu tempo de ativa a família também acumulou péssimas experiências.
. Pode ter vivido medo.
. Raiva.
. Frustração.
. Vergonha.
. Preocupação.
. Dívidas.
. Noites sem dormir.
. Internações.
. Promessas de mudança seguidas por recaídas.
Por isso não seria justo exigir que familiares simplesmente “esqueçam o passado”, a recuperação não significa apagar a memória de quem sofreu. O desafio é outro: é permitir que o passado seja lembrado sem obrigatoriamente determinar o futuro. A família também pode precisar aprender uma nova maneira de se relacionar com aquela pessoa: durante muito tempo, toda a dinâmica familiar pode ter passado a girar em torno da dependência.
. Um vigia.
. Outro encobre.
. Outro acusa.
. Outro tenta salvar.
. Outro já desistiu.
Quando o consumo diminui ou cessa, esses papéis familiares nem sempre desaparecem automaticamente e precisam ser revistos. E para melhor se relacionar com o dependente (seja em recuperação ou não) é principalmente, acolher com amor e aprender sobre dependência química, atualmente os estudos, tratamentos e terapias vem avançando muito para quem chamamos de “codependentes”. Mas não confundir “acolher com amor” com aceitar e justificar, o dependente precisa saber “quem está no comando daquela situação que não é mais a substância.
A PESSOA PRECISA DESCOBRIR QUEM É SEM A DROGA
Contudo, há um ponto crucial pouco debatido. Depois de anos de dependência, algumas pessoas sabem muito bem quem eram durante o uso, mas não sabem mais quem são sem ele, não saber o que irão fazer de sua vida se o uso, isso envolve também questões neurológicas.
A substância ou o álcool pode ter organizado na vida da pessoa: horários, amizades, lugares frequentados, relações amorosas, formas de aliviar sofrimento e até maneiras de se divertir.
Mas e quando ela desaparece? Surge um espaço, um abismo. Justamente esse espaço precisa ser preenchido por alguma coisa.
. Trabalho.
. Relacionamentos.
. Responsabilidades.
. Projetos.
. Afetos.
. Interesses.
. Espiritualidade, para quem ela fizer sentido.
. Lazer.
. Pertencimento.
. Desejos.
. Uma vida possível.
. Nesse sentido, recuperar-se também envolve reconstruir identidade.
A pergunta deixa gradualmente de ser apenas: “Como faço para não usar? ” e começa a incluir: “Como quero viver?”
Talvez essa seja uma das transformações mais importantes de todo o processo.
Muitas vezes ocorre a troca ou a transferência de compulsão, que também pode ser perigosa (este assunto será tratado em outro artigo específico)
A RECUPERAÇÃO NÃO É VOLTAR A SER EXATAMENTE QUEM SE ERA ANTES
Mesmo que embora haja uma expectativa, especificamente da família, de que o tratamento irá “devolver” a pessoa ao estado anterior, sabemos que não é apagar alguns anos da história e simplesmente retomar a vida do ponto em que ela parou, infelizmente nem sempre é assim, embora possa acontecer em determinados casos.
Algumas relações mudaram, pessoas foram embora, oportunidades foram perdidas e passaram, mas algumas consequências permanecerão. Mas outras possibilidades também podem surgir.
Talvez a recuperação não seja exatamente a tentativa de reconstruir a pessoa que existia antes da dependência, mas sim uma nova pessoa, a construção de uma pessoa capaz de integrar sua própria história, inclusive seus erros, sem permanecer aprisionada nela e sem se anestesiar.
VOU SER DEPENDENTE PARA SEMPRE?
Essa pergunta aparece frequentemente e de diferentes maneiras durante o processo de recuperação e por trás dela, muitas vezes existe outra:
Tudo o que eu fizer na minha vida será visto a partir disso?
Há uma grande diferença entre reconhecer a necessidade de cuidado contínuo e transformar alguém eternamente em seu diagnóstico. O dependente precisará manter acompanhamento, conhecer seus fatores de risco, cuidar de sua saúde mental, reconhecer situações de vulnerabilidade e construir estratégias para prevenção de recaídas. Há um princípio básico na recuperação: evitar hábitos, lugares e pessoas da sua época de ativa.
Isso é cuidado, mas o cuidado não precisa, necessariamente, significar identidade permanente, uma pessoa continua sendo muitas coisas simultaneamente.
Pode ser alguém em recuperação e também ser:
. Mãe.
. Pai.
. Filho.
. Companheiro.
. Profissional.
. Amigo.
. Estudante.
. Alguém que gosta de música.
. Alguém que cozinha.
. Alguém que pratica esporte.
. Alguém que deseja reconstruir relacionamentos.
. Alguém que ainda está aprendendo.
. Alguém que erra.
. Alguém que acerta.
. Enfim........Alguém.
Antes e sobretudo de qualquer diagnóstico.
ENTRE A VITIMIZAÇÃO E A CONDENAÇÃO EXISTE UM CAMINHO
Um dos principais desafios na abordagem da dependência química consiste em evitar visões extremistas. De um lado: Ele é doente, portanto não pode ser responsabilizado. x Ele fez essas coisas, portanto será sempre essa pessoa.
Nenhuma das duas posições parecem suficientes, porém existe um espaço mais difícil, porém mais humano entre elas. Nesse espaço é possível dizer: você precisa responder pelas suas escolhas, você precisa reconhecer os danos que provocou, você precisará reconstruir a confiança.
Mas também é possível dizer: Você não precisa permanecer para sempre reduzido ao pior período da sua história.
UMA PESSOA É MAIOR QUE O CAPÍTULO MAIS DIFÍCIL DE SUA VIDA
A dependência química pode ter ocupado anos da pessoa, ter provocado perdas, alterado profundamente relações e ter deixado cicatrizes em todos que estavam próximos. Reconhecer isso faz parte de uma abordagem responsável. Porém, reduzir alguém exclusivamente à dependência impede que enxerguemos aquilo que o tratamento procura justamente tornar possível: a mudança.
Se acreditarmos que ninguém pode mudar, toda proposta de recuperação, mais elaborada que seja, perde todo seu sentido. A internação é somente uma fase da recuperação e não se deve depositar nela toda esperança, lembrando que o paciente terá alta e é fora da instituição que ele vai se deparar "com seus monstros".
A responsabilidade é indispensável, limites são necessários, e o tratamento é necessário e indispensável.
A reconstrução da confiança exige tempo, e a dignidade também precisa fazer parte desse processo.
Existe uma diferença enorme entre dizer: Você precisa assumir responsabilidade pelo que fez e afirmar: Você será para sempre aquilo que fez.
A dependência química pode fazer parte da história de uma pessoa, mas não precisa se tornar toda a sua identidade.
E talvez uma das tarefas mais profundas da recuperação seja: reconhecer o passado sem continuar vivendo dentro dele.
Muito obrigado e um forte abraço!!!
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Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação ou acompanhamento individualizado realizado por profissionais de saúde.



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