top of page
Buscar

Álcool: a droga que aprendemos a não enxergar como droga

alexandre5057
30 de ago.
4 min de leitura

Álcool: a droga que aprendemos a não enxergar como droga


Existe uma droga presente em aniversários, casamentos, confraternizações, encontros entre amigos e grandes comemorações. Ela acompanha a vitória do nosso time, o jantar de família e o brinde de uma conquista.


Mas essa mesma substância também pode aparecer quando alguém está triste, frustrado, ansioso, sozinho ou tentando esquecer um problema.


Estamos falando do álcool.


Talvez uma das características mais preocupantes do álcool seja justamente esta: apesar de ser uma substância psicoativa, aprendemos culturalmente a tratá-lo de maneira muito diferente das demais drogas.


Quando beber se torna sinônimo de comemorar


Desde muito cedo, somos expostos a uma associação quase automática entre determinadas situações e o consumo de bebidas alcoólicas.


Conquistou alguma coisa? Vamos brindar.


É aniversário? Tem bebida.


Vai encontrar os amigos? Vamos beber.


Está de férias? Uma cerveja para relaxar.


Terminou um relacionamento? “Você precisa sair e beber para esquecer.”


Perceba algo interessante: o álcool pode estar presente tanto na felicidade quanto na tristeza.


Bebe-se para comemorar e bebe-se para esquecer.


Bebe-se para socializar e bebe-se para enfrentar a solidão.


Bebe-se para relaxar e, algumas vezes, para tentar suportar aquilo que emocionalmente está difícil demais.


Quando uma substância passa a ocupar tantos lugares diferentes em nossa vida emocional e social, precisamos pelo menos nos permitir questionar essa relação.


“Ele sabe beber”


Existe uma expressão muito comum e aparentemente inofensiva: “Fulano sabe beber.”


Em determinados círculos sociais, saber beber chega a ser considerado uma qualidade.


Mas experimente substituir a palavra álcool por “droga”:


“Fulano sabe usar uma droga muito bem.”


A frase imediatamente causa outro impacto.


E isso acontece porque construímos uma separação cultural entre o álcool e aquilo que costumamos chamar de “drogas”, embora o álcool também seja uma substância psicoativa capaz de provocar intoxicação, tolerância, dependência e importantes consequências à saúde.


Não estou dizendo que toda pessoa que bebe desenvolverá dependência. Evidentemente, não.


A questão é outra: por que temos tanta facilidade para reconhecer os riscos de determinadas drogas e tanta dificuldade para olhar criticamente para o álcool?


O primeiro contato pode começar dentro de casa


Existe outro aspecto que muita atenção: aquilo que as crianças aprendem observando os adultos.


Uma criança não precisa consumir álcool para começar a construir uma representação sobre ele, ela apenas observa.


Observa que os adultos brindam quando estão felizes.


Percebe que determinada bebida aparece sempre que existe uma comemoração.


Escuta alguém dizer que precisa beber para relaxar depois de um dia difícil.


Vê o álcool sendo associado à diversão, à descontração, à masculinidade, à vida adulta ou ao pertencimento a determinado grupo.


Em algumas famílias, existe ainda a ideia de oferecer “só um golinho”, ou "molhar o dedo na espuma da cerveja" para a criança ou permitir que o adolescente experimente bebida alcoólica sob supervisão, tratando aquele momento quase como um rito de passagem.


Independentemente da intenção dos adultos, existe uma mensagem sendo transmitida.


Muito antes de uma criança compreender os riscos do álcool, ela pode já ter aprendido o significado social que atribuímos a ele.


É por isso que prevenção também começa pelo exemplo.


Por que chamamos o álcool demãe de todas as drogas”?


No universo da dependência química, utilizamos, informalmente, a expressão de que o álcool seria a “mãe de todas as drogas”.


Claro que não é uma classificação científica, mas muito usada entre os profissionais da área.


Trata-se de uma expressão popular que pode ser utilizada para provocar uma reflexão sobre a enorme presença do álcool em nossa cultura, sua facilidade de acesso e, principalmente, a maneira como frequentemente subestimamos seus riscos.


O problema não está apenas na substância.


Sempre precisamos olhar para a relação que cada sujeito estabelece com ela.


Quando alguém começa a precisar do álcool para relaxar, dormir, enfrentar situações sociais, aliviar sofrimento, fugir de pensamentos ou simplesmente conseguir sentir-se bem, talvez já não estejamos falando apenas sobre uma bebida.


Estamos falando sobre a função que aquela substância passou a exercer na vida psíquica daquela pessoa.


E essa é uma questão que merece atenção.


A Psicanálise nos convida a fazer outra pergunta


Diante do consumo problemático, é muito fácil limitar a discussão à quantidade:


Quanto essa pessoa bebe? ou A partir de quantas doses ou se bebe todo dia já é um alcoolista?


Essas perguntas são importantes, mas podemos acrescentar outras:


Por que ela bebe?


O que procura quando bebe?


O que consegue sentir, ou deixar de sentir, quando está sob efeito do álcool?


Que lugar essa substância ocupa em sua história?


Para algumas pessoas, o álcool pode aparecer como tentativa de silenciar angústias, diminuir inibições, anestesiar perdas, preencher vazios ou afastar temporariamente sentimentos difíceis de suportar.


Isso não significa reduzir toda dependência a uma única explicação psicológica. A dependência química é um fenômeno complexo, atravessado por fatores biológicos, psicológicos, familiares e sociais.


Mas significa compreender que por trás de uma substância existe sempre um sujeito e uma história.


E nenhum tratamento pode esquecer disso.


Conscientizar não significa demonizar


Falar sobre os riscos do álcool não significa condenar moralmente quem bebe.


Também não significa afirmar que todo consumo necessariamente levará à dependência.


O que precisamos questionar é a romantização.


Existe uma enorme diferença entre dizer às pessoas o que elas devem fazer e oferecer informações para que possam compreender melhor suas escolhas e seus riscos.


Por isso, talvez seja necessário começarmos a conversar sobre álcool da mesma maneira responsável com que conversamos sobre outras substâncias psicoativas.


Sem preconceito e sem moralismo nenhum.


Mas também sem minimizar seus riscos, simplesmente porque seu consumo foi culturalmente naturalizado há séculos.


Uma reflexão final


Talvez devêssemos terminar com uma pergunta desconfortável:


Se o álcool não estivesse presente em nossas festas, propagandas, encontros, comemorações e tradições há tantas gerações, nós ainda o enxergaríamos com a mesma naturalidade?


Não precisamos responder imediatamente, sinceramente muitos não conseguiriam responder.


Mas precisamos começar a fazer a pergunta.


Porque informação não é julgamento e a prevenção não é proibição.


E falar sobre álcool é também falar sobre saúde mental, vínculos familiares, vida social, sofrimento psíquico e cuidados.


Um grande abraço

 
 
 

Comentários


Alexandre Predeus Psicanalista Clínico | Especialista em Dependência Química e Saúde Mental
© 2026 Alexandre Predeus. Todos os direitos reservados.

bottom of page